*** Tudo o que fizermos, para o bem ou mal, a nós retornará triplicadamente e nesta encarnação. ***

A Deusa Mãe

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013



Por Claudiney Prieto

A primeira religião da humanidade foi o culto à Deusa. Muitas evidências arqueológicas, como estátuas, amuletos, vasos e outros inúmeros objetos, foram encontrados trazendo imagens femininas, que expressam algo sagrado e divino.

As maiores evidências de culto à Deusa vêm das inúmeras esculturas de mulheres grávidas com grandes seios, coxas, nádegas e vulvas. Essas imagens foram chamadas pelos arqueólogos de Vênus e representavam objetos de culto à Grande Deusa Mãe. Elas geralmente eram feitas de pedras, ossos e barro. Essas imagens foram encontradas na Espanha, França, Germânia, Rússia, Inglaterra e Áustria. Elas não eram meramente objetos decorativos dos povos que as criaram. Eram profundamente importantes e representavam a noção do sagrado e divino. A arte revela o que a cultura valorizava e os conhecimentos que eles desejavam transmitir ao futuro. Nessa época, o nascimento, a maternidade e a sexualidade feminina eram considerados sagrados. Nesse tempo, o ato sexual ainda não estava associado à gravidez, e essas culturas não tinham conhecimento sobre o papel reprodutor do homem. As mulheres acreditavam que teriam gerado seus bebês a partir delas mesmas, sem a ajuda do homem, ou do ato sexual, e por isso eram consideradas as doadoras da vida.

Vênus de Willendorf, hoje também conhecida como Mulher de Willendorf.
As crianças nascidas pertenciam à sua comunidade e mães e crianças ilegítimas não existiam. As crianças recebiam o nome de sua mãe e sua linhagem, sendo assim uma cultura matrilinear e matrifocal. A mulher era a portadora de todo o poder e tinha status social mais alto que os homens. Nessa época, as mulheres não eram consideradas dependentes ou propriedades dos homens.

As mulheres eram as grandes Sacerdotisas da Deusa. Elas eram as adivinhas, parteiras, curandeiras, transmissoras da cultura da Deusa, guardiãs dos mistérios. Por meio do envolvimento das mulheres com a religiosidade foram possíveis vários avanços da humanidade. Foram elas que catalogaram o uso mágico e medicinal das ervas. A criação dos primeiros calendários que eram lunares, e não solares, também foram invenções das mulheres, pois era por esses calendários que controlavam seus ciclos menstruais e o plantio e a colheita.

Como passavam a maior parte do tempo nas tribos, enquanto os homens saíam para caçar, elas desenvolveram a língua, a agricultura, a culinária, entre outras coisas. A mulher era a representante da Deusa na Terra.

O culto à Deusa existiu desde a era Paleolítica. Os primeiros antropólogos e arqueólogos afirmam que a primeira Divindade cultuada pelos antigos povos foi feminina. Isto coincide com os antigos mitos e crenças de que a criação ocorreu por meio de uma autofertilização. Nos antigos conceitos da criação, a participação do princípio masculino ainda não era reconhecida. Acreditava-se que a Deusa teria criado o universo por si só, ou seja, sozinha.

Dessa crença originam-se as religiões agriculturais. Acreditava-se que os Deuses só prosperavam pela beneficência e sabedoria que a Deusa compartilhava com eles.

Entre as primeiras imagens descobertas que retratam a Deusa estão as estátuas nomeadas Vênus, figuras femininas com seios e vulvas exageradas que datam da Era de Cro-Magnon, do Paleolítico superior, entre os períodos de 35000 a 10000 AEC.

No sul da França foi encontrada a Vênus de Laussel. Essa estátua foi descoberta em um sítio arqueológico que provavelmente era um santuário de caça que data de 19000 AEC. Ela é vermelha, talvez sugerindo sangue, um símbolo de vida, e em uma das mãos, carrega um chifre.

Vênus de Laussel ou Mulher com chifre.
Outras figuras semelhantes, anteriores ao período Protoneolítico, de 9000 a 7000 AEC, e o período Neolítico Alto, de 4500 a 3500 AEC., decoradas como se fossem objetos de culto, foram descobertas em inúmeras localidades. Na África foram encontradas imagens de Deusas astadas, que pareciam bissexuadas, autofertilizando-se.

A cultura Halaf, que floresceu às margens do rio Tigre, entre 5000 AEC. e 4000 AEC., associava figuras a vacas, serpentes, machados duplos, cabras, porcos, búfalos, pombos, todos símbolos que representam a Deusa.

Na Suméria, por volta de 4000 AEC., Princesas e Rainhas eram associadas à Deusa. A Deusa assumiu inúmeros aspectos ao longo da história. Ela foi vista como Criadora, Donzela, Mãe, Destruidora, Guerreira, Caçadora, Artista, Jurista, Curandeira e Feiticeira. Suas funções e habilidades aumentaram com o avanço das culturas que a veneravam.

Ela representa a Rainha com seu Consorte, ou amante. Cuidava de seu filho, que morria jovem ou era sacrificado e renascia novamente, representando o anual nascimento-morte-renascimento do ciclo das estações.

Através dos séculos, a Deusa adquiriu milhares de nomes e faces, mas sempre representando a natureza foi associada ao Sol, à Lua, à Terra, aos céus. Por isso, a Religião da Deusa pode ser considerada a Religião da natureza, em todas as suas formas. Todos os que cultuam a Deusa, também cultuam ou cuidam da natureza.

A Deusa é o princípio divino criador do universo. Ela foi a suprema Divindade cultuada por muitas pessoas por milhares de anos. Infelizmente, com a ascensão do culto aos Deuses masculinos e o surgimento do Patriarcado, por volta da Era de Áries (2000 AEC.), Ela foi silenciada. Mas seu culto atualmente ressurge com força em inúmeros lugares do mundo por meio de movimentos religiosos feministas que buscam uma maior ligação com a Terra, sobretudo entre os Wiccanianos.

Ela é uma força multifacetada que expressa uma variedade de formas e assume diferentes nomes. Na Wicca, a Deusa é a figura central da Arte e do culto. Ela é a Grande Mãe, que representa fertilidade, que faz a vida desabrochar. Ela é considerada a Mãe natureza, a própria biosfera, de planetas e forças de elementos. Ela é a Criadora e Destruidora, a Rainha dos Céus e da Lua.

Vênus de Milo

Para nós, Wiccanianos, a Deusa é a Criadora de tudo e de todos, mas também é a Destruidora. Tudo veio através Dela e a Ela tudo um dia retornará. Ela vive em todas as coisas, na Terra, nos céus, nos mares, em cada ser, em cada objeto, em cada átomo. Ela é imanente e incorpora a Terra e nós mesmos.

Para a Deusa tudo é sagrado e por isso abençoado. Exatamente por esse motivo as pessoas que se interessam por esta religião vêm de diferentes orientações culturais, sociais, sexuais e são muito bem aceitas em nossa religião. Não há critério, regras e leis para amar a Deusa e cultuá-la, apenas ter o coração e a mente abertos e ser livre. Livre de preconceitos, livre de visões limitadoras, livre enfim de tantos anos da programação patriarcal que nos levaram às diferenças entre os seres humanos, só nos trazendo guerras, pecados, medos, escravidão, subserviência e desigualdades.

Resgatar o culto à Deusa é extremamente positivo, especialmente para os que se sentem oprimidos, desapontados e ignorados pelas religiões patriarcais, que só oprimiram e marginalizaram a figura da mulher e sua atuação, retiraram a liberdade de sermos o que queremos ser e de celebrarmos a diversidade. A Deusa ama a diversidade. Ela é a Senhora da liberdade plena e por isso pode libertar nossas mentes, nossos corpos e nossos espíritos de conceitos castradores e que só tolhem nossa liberdade de ação e expressão. Ela possui muitas facetas, nomes e aspectos, e na Wicca Ela é principalmente cultuada em seu aspecto triplo de Donzela, Mãe e Anciã.


Fonte: Unilep

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